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AULA,
QUE ABSURDO!
(A Aula de Ionesco)
Tudo que é imaginado é verdadeiro
Nada é verdadeiro se não for imaginado
Eugène Ionesco
O teatro de Ionesco diferencia-se da "Bela-Peça".
Nesta, há uma história habilmente contruída, um tema
inteiramente apresentado e finalmente resolvido; um especial cuidado em
espelhar a realidade, retratando as maneiras e trejeitos da época,
em quadros detalhadamente observados: uma sutileza da caracterização
e da motivação: um diálogo espirituoso e perspicaz.
Já no Teatro de Ionesco quase não existe história,
nem enredo; não há começo, nem fim; existe, sim,
o reflexo de seus sonhos e pesadelos; os personagens não são
reconhecíveis, assemelham-se a bonecos mecânicos colocados
diante do público; toda caracterização é agressiva;
balbucios incoerentes tomam o lugar do diálogo.
O teatro de Ionesco é um dos caminhos do teatro contemporâneo.
Nesse caminho ele procura expressar a sua angústia metafísica
pelo absurdo da condição humana, ou seja, expressar a sua
noção de falta de sentido da condição do ser
humano, desconectado de suas raízes metafísicas, transcedentais,
religiosas. Ele procura expressar também a insuficiência
da atitude racional.
O esquema de suas peças espelha o orgasmo: é o esquema da
acumulação, da intensificação, da progressão,
da aceleração, da proliferação atingindo o
paroxismo, quando as tensões psicológicas, os estados de
consciência ou situações são intensificados,
tornando-se mais ou menos densos, e emaranhados, atingindo o insuportável.
Há de haver a liberação capaz de trazer a sensação
de serenidade. E é o riso que faz o papel dessa liberação.
Por isso suas peças são dramas cômicos, dramas perpassados
de humor. Ele acredita que o humor é a única saída
para que possamos conviver com a falta de sentido de nossa condição
humana.
A linguagem utilizada por Ionesco no seu teatro é desconexa. Ele
parte para a desvalorização radical da linguagem, privilegiando
as imagens concretas objetivadas no palco.
O elemento linguagem ainda desempenha papel importante, mas o que acontece
no palco transcende e contradiz as palavras ditas pelos personagens. É
que Ionesco desistiu de falar sobre o absurdo da condição
humana, preferindo apresentá-lo tal como existe.
Essa apresentação de absurdo é que causa a desconexão
da linguagem, isto é, as palavras proferidas nas suas peças
nos são familiares, os conceitos também, mas por um processo
de contraste, de elipse, de descontinuidade, de improviso, as palavras
não têm o sentido convencional a que estamos habituados:
tornam-se caricatura, linguagem fossilizada, denúncia de um mundo
que perdeu sua dimensão metafísica, no qual o homem não
tem mais a sensação do mistério.
Entretanto, subjacente a essa linguagem desvalorizada, há um apelo
de Ionesco à restauração do conceito poético
da vida, uma intenção de tornar a existência mais
autêntica.
As táticas do teatro de Ionesco são as de choque perpassadas
pela concepção de que a consciência do espectador,
seu equipamento habitual de pensamento, sua linguagem, devem ser virados
pelo avesso para lhe possibilitar uma nova percepção da
realidade. Essas táticas facilitam o mergulho do espectador no
absurdo e no desespero que, segundo o autor, põe cada um, por sua
vez, a possibilidade do não absurdo e a busca de uma saída
possível.
Ionesco expressa-se em peças de um só ato que possam ser
desenvolvidas sem interrupção, pois está convencido
de que teatro se faz com uma idéia muito simples, uma só
obsessão e um desenvolvimento claro, auto-evidente.
Problematizador, crítico, o teatro de Ionesco contém duas
linhas paralelas: a completa liberdade no exercício da imaginação
e o forte elemento polêmico. Para o dramaturgo romeno, a criação
artística é espontânea, e a fantasia é reveladora:
um método de cognição.
Por outro lado, qualquer obra nova contém elementos polêmicos,
pois um autor de vanguarda se opõe ao sistema vigente, é
agressivo. A criação é agressiva, é dirigida
contra a maioria do público pela novidade que apresenta. Causa
indignação pelo inusitado e por ser ela própria uma
forma de indignação.
Contestador, esse teatro aborda dois temas fundamentais: um é o
protesto contra o torpor da civilização mecânico-burguesa,
a perda dos valores reais; o outro é a consequente degradação
da vida.
Seria errôneo considerar Ionesco apenas um palhaço, um autor
de brincadeiras. Suas peças são um complexo de poesia, pesadelo,
fantasia, crítica social e cultural, apesar de detestar o teatro
abertamente didático, afirmando: "Não ensino, deponho.
Não tento explicar nada. Tento explicar-me".
Seu teatro reflete suas preocupações, angústias,
emoções, pensamentos. Consiste na projeção
para o palco do seu mundo interior. Consiste, outrossim, na tentativa
de transmitir aos demais o seu próprio sentido da existência,
de dizer ao mundo quem ele é, o que sente.
Ionesco afirma que busca a matéria-prima de seu teatro em seus
sonhos, suas angústias, seus desejos mais sombrios, suas contradições
interiores. Não se sentindo só no mundo, nem solitário
em tudo que é seu, admite ter adquirido muito do que traz em si
de um repositório antiquíssimo do qual, certamente, toda
humanidade beneficiou-se. E assim ele conclui que suas preocupações,
angústias e pensamentos são comuns aos seres humanos.
A intenção de ionesco ao escrever suas peças é
que relacionemos com as suas abstrações nossa condição
humana como a experimentamos. Ele quer aprofundar nossa consciência
da condição humana, fazer-nos experimentar o que seus personagens
experimentam.
Ele concebe o teatro como uma obra de arte, um espaço do testemunho,
uma expressão de uma realidade incomunicável que, às
vezes, consegue comunicar-se.
Lenita Ferreira de Oliveira
Filósofa, Pedagoga e Psicóloga Clínica
Publicado no Caderno de Educação Ano II
n.5, da Universidade do Estado de Minas Gerais.
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